quarta-feira, 1 de junho de 2011

Salões do choro




O Sesc Fortaleza e o Mercado dos Pinhões fazem da sexta-feira um dia para dançar choro em Fortaleza. Os lugares conquistaram um público fiel. O Vida & Arte conferiu as festas e conversou com parceiros de salão e gente que não passa uma sexta sem choro

Mulheres se balançam no salão. Nas cadeiras, olhares atentos aos passos na pista. Quem sabe seja a próxima a receber o convite de um cavalheiro. O colar combina com os óculos e o relógio e ficam muito bem junto ao vestido amarelo e elegante de Sulamita Aragão. Viúva, a senhora de pele morena e rosto redondo mora ali pertinho, vem a pé, sempre na companhia do primo Vicentino, par garantido para a dança. Mas naquela sexta-feira, 8, estava sem parceiro. Para compensar levou a amiga Francisca Mota, iniciante na festa. “Até agora estou achando bom”, diz Francisca. “Só não está melhor porque não tem ninguém para dançar”. Mas os homens aqui são ruins de convidar? “É difícil chamarem. Tem que vir já com o par garantido”, explica Sulamita. E porque você não convida? “Eu não! O homem é que tem que chamar. Além do mais, vai que eu levo um não!”, brinca. Sulamita e diz que o lugar é bom para fazer amizades e se enrubesce quando o assunto é namoro. “Já ouvi umas histórias aí de galanteios”.

As amigas chegaram cedo no Sesc da Clarindo de Queiroz, para o Clube do Choro. O movimento começa no cair da noite, ainda por volta das 18 h, enquanto os músicos ainda alinham os banquinhos e conferem os instrumentos, o público vai chegando e se acomoda nas cadeiras de plástico, toma cerveja, se reencontra depois de uma semana de espera. Do lado de fora, por detrás da grade preta, senhores fumam o último cigarro e estudantes aguardam, curiosos, o início da festa.

O seis músicos estão juntos no Clube do Chorinho desde quando foi transferido da rua Padre Mororó, da casa do “seu Mundico”, membro do clube, para a Clarindo de Queiroz, no Sesc Fortaleza, há três anos. O que antes era uma reunião de amigos, iniciada em 1976, se transformou na tradicional festa do choro. A casa ficou pequena. Foi preciso mudar de endereço, mas, mantida a sexta-feira, a festa ganha a cada semana novos freqüentadores. Tudo por conta da propaganda de boca. Os músicos são os donos dos instrumentos. Se faltar um, já viu, a música segue faltando um pedaço. Também tem uns que se aproximam, tocam um pedacinho, e saem para dar lugar a outro. Quem quiser e souber tocar a música, pode se achegar.

A festa é eclética. Surgiu meio que de brincadeira e se firma como espaço para a divulgação do choro e como uma opção de boa música na noite da cidade. Reúne famílias, jovens casais, mas em sua maioria, os freqüentadores são pessoas que já passaram dos 60, não perderam a juventude, e transformam o “chorinho do Sesc”, como é conhecido, em muito mais que um baile da terceira idade. O clima da festa é percebido no sorriso das pessoas, no fôlego dos passos difíceis de acompanhar. Vestidas com as suas melhores roupas, perfumadas, as pessoas se encontram, paqueram, fofocam.

Companheiro para dançar não é problema no Mercado dos Pinhões. O chorinho, também realizado às sextas-feiras, permite que todo mundo mate a vontade de dançar. O lugar tem uma espécie de aluguel de dançarinos. Por R$ 1,00, os membros da academia do professor Chocolate acompanham a pagante nas melodias do chorinho. O preço é por música. Mas só tem dançarinos homens. É que a falta de homens é mais freqüente.

A festa que existe há quase dois anos, começa às 21 h, mas quem chega depois das 20 h já não encontra mesa para ficar. “É um lugar bem concorrido. Chegamos tarde e agora estamos de pé”, lamenta Nilta Almeida, 60, que foi ao chorinho do Mercado pela primeira vez na última sexta-feira, acompanhada do namorado Paulino da Silva, 78. Da próxima vez, o casal garante que não se atrasa.

No Mercado dos Pinhões se revezam o grupo do bandolinista Macaúba e o Cordas que Falam, que fazem o choro de raiz. No público, famílias, casais de namorados. A maioria ocupa as mesas nas laterais do salão enquanto a banda toca instrumental. Ao centro, na pista de dança alguns casais arriscam passos.

Diva Brito, 63, é a primeira que se anima quando a voz acompanha o choro do cavaco. “Eu gosto de dançar sozinha, então todo canto para mim é bom”. A maquiagem e o balanço do corpo denunciam que ela foi dançarina do extinto do programa do Irapuã Lima, na TV Cidade. Mora pertinho do Mercado e vêm para o choro todas as sextas-feiras. Dança do jeito que quer. “Quer ver?”. Na menor afirmação, Dina levanta as mãos, sacode os pés, faz performances e caras e bocas. Gosta de encher a boca para dizer que não precisa de um homem para dançar. E sai, ao som do bandolim, para bailar sozinha, entre os casais, no meio da pista.

SERVIÇO

Clube do Chorinho - As apresentações acontecem às sextas-feiras, às 19h30, no Sesc Fortaleza (rua Clarindo de Queiroz, 1740). Gratuito.

Chorinho no Mercado dos Pinhões - Às sextas-feiras, a partir das 21h, se revezam os grupos Cordas que Falam e do bandolinista Macaúba. Praça Visconde de Pelotas, s/n - Entre as ruas Gonçalves Lêdo e Nogueira Acioly. Gratuito.

Bar do Arlindo - A banda Nabuco 2186 realiza interpretações dos clássico de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e dos cearenses Macaúba e Tarcísio Sardinha se misturam à composições dos próprios integrantes. O resultado é uma terça-feira já tradicional do choro na casa. A partir das 19h30, com entrada gratuita. Rua Joaquim Nabuco, 2186 - Dionísio Torres. Fone: 3268.1436.


PERSONAGENS

Amaral da Silva atrai olhares curiosos. Os passos precisos e a técnica de dançar o choro se completa com o figurino bem característico do malandro: sapato e camisa branca com vermelho, calça branca com cinto, o chapéu alvo como o paletó. Passaria, talvez, despercebido não tivesse Amaral oito anos. Acompanhado dos pais, a pedagoga Ronesir Amaral e o médico Alexandre Carneiro e da irmã Karina, 12, o garoto não pára quieto nenhuma música sequer. O pai supervisiona. "Não, meu filho, o passo é assim". A família não perde uma sexta-feira do Sesc e, na semana, ensaia os passos a serem exibidos. "O Amaral é o mais dedicado. Ele ofusca todos nós", conta o pai.

João Bosco, 65 e Evanilza Marcelino, "um pouquinho mais que ele", dividem as pistas de dança há sete anos. Todos os fins de semana, o casal vai à festas de forró, além do chorinho do Sesc e no Mercado dos Pinhões. Companheiros de dança desde 1999, se conheceram num forró, quando o João o convidou Evanilza para dançar. Desse tempo para cá, João teve algumas namoradas e, mesmo a atual, não tem ciúmes da companheira de dança. "Viramos grandes amigos e não enfrentamos problemas com isso", garante. Ela, divorciada, confirma. "Não tem essa de ciúme não. A nossa dança tem sintonia", afirma.

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