segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Do porque não quero mais dar aulas

Por ocasião do destino acabei saindo da sala de aula, não por que eu propriamente quis, apenas por questão do destino, e recentemente conversando com uma amiga ela me fez o seguinte sincero desabafo que quero compartilhar Não é porque é cansativo e desgastante, acho q isso muitas outras profissões também o são, às vezes muito mais. Não é porque é uma puta duma responsabilidade e tensão constante lidar com filhos dos outros. Acho q um médico tem uma carga de stress por conta desses fatores bem maior que a minha. Não é porque é um trabalho solitário em que você quase não tem amigos de profissão e que as pessoas que passam a maior parte do tempo com você não tem idade o suficiente pra te compreender ou compartilhar assuntos do seu interesse. É porque é cansativo, desgastante, tenso, solitário, uma puta duma responsabilidade e ingrato. Acho lindo, e hoje sei admirar como ninguém o trabalho de um professor. Sua paciência, determinação, persistência e principalmente sua resignação. Sempre disse – a quem me perguntava o que eu estava achando de dar aulas – que, antes de mais nada, é um trabalho ingrato. Sabe quando você vai ao médico porque está doente e precisa dele? Ou quando vai ao banco porque precisa de um empréstimo? Ou quando vai ao dentista para tratar seus dentes? Pois é. Você procura esses prestadores de serviço. Você não é obrigado a ir até eles. Eu presto serviços também. Mas não para aqueles que me procuram. Eu presto serviço para os filhos daqueles que me procuram. Ou seja, eu presto serviço por tabela. E, acreditem, não é legal. Vocês podem dizer: “Mas o professor pode conquistar o aluno”, “muito alunos querem/gostam de aprender” e outros blablablas. E eu digo que sim. Há esses casos. Mas são exceções. E não dá pra viver de exceções na vida. Recuso-me a viver com base nessa logica perversa de um mundo que vende a exceção como regra. De que você pode ser uma Gisele Bunchen, um Sílvio Santos ou até mesmo uma Pereirao que vai ganhar na loteria um dia e ajeitar a vida... Não dá pra se iludir com filmes que mostram professores de escolas de algum canto do Bronx dando jeito em turmas aparentemente sem futuro nenhum e sendo aclamado pelos alunos e pela escola no final do ano letivo. Não sei se as pessoas reparam, mas esses professores, normalmente, são deixados pelas esposas/maridos, gastam todo seu dinheiro com livros pra escola e tem seus carros violados por alunos agressivos. Pois é, “mas isso são ossos do ofício” alguns diriam, e eu respondo: Tô de boa desses ossos do ofício então. Claro que não acho que meu carro será violado por um aluno (apesar de ser possível) e nem tomo como base filmes em que, diferente da realidade, o professor tem no máximo 20 alunos em sala e total liberdade pra tratar do assunto que quiser sem se preocupar com o “cumprimento da programação”. Mas muita gente se emociona e eu também acho digno tanta entrega e tanto comprometimento em situações tão “adversas”. É de se admirar. Não de se viver. Na realidade nua e crua em que vivo – o ensino particular – os problemas dos alunos não são pais alcoólatras, presidiários ou viciados. São pais permissivos que transferem a responsabilidade da educação (de valores, princípios) pra escola e cobram da instituição aquilo que eles mesmos não ensinam. Nessa realidade as preocupações dos alunos não são de levar comida pra casa ou de passar o maior tempo possível fora dela pra não cruzarem com o padrasto abusador, mas de se aquela sua camiseta da Abercrombie está lavada pra usar na festinha daquela noite ou se o Justin Bieber vai ver seu twitt no @fãclubeJbibber. Em uma realidade em que se cobra a atuação de um professor mediador e não detentor do conhecimento e que ao mesmo tempo te joga 40 alunos cheios de hormônios dentro de uma sala; que se investe em tecnologia como catalisador de aprendizado e que não te oferece a possibilidade de sair do beabá da apostila tradicional, as exceções não compensam as regras. De novo, acho admirável continuar em uma luta para a inspiração de pelo menos alguns dentro da multidão, porque essa inspiração existe. É possível perceber aqueles que de fato você conseguiu contribuir pra formação de um senso crítico e crescimento pessoal. Mas são tão poucos... E como cantaria Maria Rita, “pouco eu não quero mais...” Eu poderia fazer tudo de uma maneira mais fácil. Eu poderia ignorar que essa instituição (escola) é falida, que não faz sentido colocar seres humanos fechados dentro de salas por períodos tão extensos do seu dia (pq afinal, não é só a escola, ainda tem o inglês, o espanhol, o Kumon e por aí vai), que não faz sentido cobrar notas e comportamento se todo aluno que paga no final das contas será aprovado e... Enfim, eu poderia ignorar tudo isso, entrar na sala de aula, fazer todo mundo calar a boca, passar o conteúdo cristalizado da apostila, dar notas gratuitas e ainda receber elogios de mães e da escola. Mas eu não consigo, eu não quero. Por que como disse o grande Darcy Ribeiro um dia: Nós temos duas opções nessa vida, se resignar ou se indignar, e eu não vou me resignar nunca. Eu quero contribuir para uma mudança no mundo, eu quero dar o melhor de mim para o melhor de todos, mas não mais desse jeito. Não de um jeito que me destrua. Porque eu também quero viver e viver bem. Afinal a gente não sabe muita coisa da vida, mas sabemos que é breve. E que se você não tem tempo pra cuidar de você e se dedicar àquilo que te faz bem você também não terá nada de bom para oferecer aos outros. Sei que sou nova, que tenho muita coisa pra viver, mas algumas coisas são interessantes a gente aprender a partir das experiências dos outros. E eu aprendi. Aprendi com a minha mãe que é possível encontrar sua realização no trabalho depois dos 40 e com filhos já crescidos. Assim como aprendi com meu pai que é possível você nunca encontra-la. Com ele aprendi também que a vida nos revela surpresas e que uma doença crônica pode te trazer o mal, mas também pode te levar à um estilo de vida muito mais leve e proveitoso. Por fim, essas minhas reflexões são tudo que tenho para levar comigo ao ano de 2012... Afinal, agora, depois de pedir minha demissão, eu sou apenas mais uma garota latino-americana com seus vinte e poucos anos e sem dinheiro no bolso... Texto de Joana a Imaginária Digo que os bons profissionais estão saindo da educação, acorda Brasil!!!!

14 comentários:

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  2. Pois é meu amigo Mendes... É a desesperança mesmo.

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  3. Joana, concordo em muitas partes com o seu texto. Gostaria muito de conversar mais com vc sobre isso, pois tb tenho 20 e poucos anos e sou professor há 4 meses.
    Grande abraço, Cássio
    kassioleal@yahoo.com.br

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  4. Me formo em licenciatura em música esse semestre, e não pretendo dar aulas em sala de aula, só aula particular de flauta e reger bandas. Me agonia a ideia de que cada pessoa é diferente, aprende de um modo diferente, tem que entender cada aluno. Numa aula particular eu consigo saber e passar o que cada um gosta de tocar, passar as coisas diferente para cada pessoa. Agora se eu tiver várias turmas com 30 alunos cada, me dá nos nervos isso. O estágio me desanimou, quando estudava aquelas metodologias achava tudo lindo e maravilhoso...mas não funciona, é desestimulante. Estou com calafrios só de pensar que o último estágio, ainda bem que é o último, começa semana que vem...

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  5. Valeu pelo texto inspirador, sou pedagoga recém formada, batalhei para ter uma boa formação e agora quando de fato entro no mercado de trabalho (escolas particulares) que susto! Sempre fiz estágio em escolas públicas...até me animei com algumas e pensei ah! até dá pra lutar para exercer boas práticas e ir abrindo espaço, mas agora nas particulares, banho gelado total...estou completamente frustrada e solitária! Não há espaço para o diálogo, para a reflexão, para as próprias crianças...realmente estou pensando em desistir...

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  7. Eu tenho vinte e tantos anos e sou professora a 4 meses e fico me peguntando será que vou suportar salas de aulas até me aposentar com 60 e tantos?; eu não quero isso pra mim porque pelo o que eu pude perceber se eu não buscar outro rumo acabarei adoecendo...

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  9. É muito difícil, tem que ter muita vontade e força mesmo. Tenho meus vinte e tantos anos to no meu segundo ano dando aula, suportei o primeiro pq eu achei que era só o susto do 1 ano de trabalho mas agora na metade do segundo ano já nem tenho mais forças, lidar com os pais das crianças é horrível, eles mandam em vc querem entender mais da sua profissão o que vc e minha coordenadora acaba permitindo isso então estou sempre tendo que mudar minha forma de trabalho pq um ou outro pais não concorda... É muito difícil ano que vem com certeza não pego mais turma, acabei desenvolvendo um transtorno de ansiedade to.o remedio e tudo e não vou jogar minha vida fora nessa loucura.

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  10. Comecei a dar aulas ano passado (2016). Como em outro relato que li aqui, achei que, superando o início, a prática me traria maior confiança, domínio, e, por consequência, prazer pela profissão. Ao contrário disso, este está sendo o pior ano de toda minha vida, e eu tenho vontade de nunca mais pisar em uma escola. Odeio tudo relacionado a escola, a começar por essa política educacional anunciadamente fracassada adotada em nosso país. Sufocante, ineficiente, mecanizada. Ano que vem largo tudo, e estou terminantemente disposto a isso, nem que eu passe fome. Prefiro passar fome a ser professor.

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  11. Me sinto exatamente assim... Mas não tenho coragem de abandonar,vou trabalhar arrastada e muito triste, contando os segundos para acabar e não ter que ouvir a voz daqueles alunos mal educados... Enfim é muito desgastante e desanimador.

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  12. Me sinto exatamente assim... Mas não tenho coragem de abandonar,vou trabalhar arrastada e muito triste, contando os segundos para acabar e não ter que ouvir a voz daqueles alunos mal educados... Enfim é muito desgastante e desanimador.

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