sábado, 7 de janeiro de 2012

15° Salão de Artesanato Paraibano desenha o mapa das raízes culturais do Estado

A arte dá um baile de história e cultura no Salão
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Foto: João Francisco/Secom-PB
O dom é o princípio. A partir dele elementos como barro, cipó, madeira, fios, ferro e chita perdem o sentido de matéria bruta - invisível aos olhos - para ganhar formas que primam pela delicadeza e poesia. Delas surge uma Paraíba que brota de suas raízes culturais. Uma parte desse Brasil gentil esculpida em pedaços do seu solo, elaborada na trama das rendas renascença e labirinto, recomposta na sustentabilidade da madeira de demolição e criativa no talo da palha do coqueiro, que mais que dar coco,  desdobra-se em  tiras finas e flexíveis para trançar maçãs, peras, laranjas...  Design, cores e texturas constituem uma bandeira para o Estado que não se "nega" em revelar no 15° Salão de Artesanato Paraibano o mapa da sua ancestralidade transmitida pelos artesãos com o toque de pura sensibilidade.

Consolidado no calendário cultural, o Salão promovido pelo Governo do Estado pode ser apresentado formalmente em números. Acontece durante 30 dias no Jangada Clube, localizado na Praia do Cabo Branco, em João Pessoa, e  evidencia a Paraíba do Litoral ao Sertão sob a ótica da arte. Soma a produção artística de 81 municípios exibida em 800 metros quadrados de área. O espaço divide-se em 481 expositores e multiplica olhares para a inventividade de 4.084 produtores que têm seus trabalhos apreciados e comercializados até o dia 22 de janeiro. A economia gerada pela força motriz dos artífices deve superar a cifra de R$ 1 milhão em negócios.

Entretanto, a magnitude do evento vai além dos algarismos. Transborda numa coletânea cultural que atravessa gerações graças a mentes e mãos criativas. No artesanato exposto reside o saber popular capaz de narrar e perpetuar recortes da história da Paraíba secular. São capítulos que contam na prosa silenciosa e subentendida nos objetos utilitários e decorativos a mistura de raças e seus costumes.  Heranças das ocupações dos antepassados indígenas, negros e europeus estão materializadas em cada recanto. No tema "Renda-se à Arte" a ordem é apreciar cada detalhe.

FLORES QUE BROTAM DOS FIOS


Da região do Cariri paraibano brotam flores e folhagens. Excentricidade para o solo pouco propício ao cultivo e exotismo de uma vegetação trançada pelos fios que compõem a renda renascença. De origem europeia que traz no nome uma alusão à arte renascentista, a técnica têxtil aportou no Brasil ainda no século 18, em meio à bagagem dos colonizadores portugueses. Na Paraíba foi incorporada nas primeiras décadas do século passado para chegar agora ao protagonismo que desfila nas principais passarelas dos eventos de moda do País.

As cidades de Pedras de Fogo, Monteiro, Zabelê, São João do Tigre, Camalaú e São Sebastião do Umbuzeiro são territórios férteis para as rendeiras da renascença paraibana. "A renda é uma ramagem. É a vida que brota do que a gente faz com amor", define Maria de Lourdes Sousa, que executa a técnica com códigos de nós e pontos exclusivos há 47 anos. Infância, adolescência e vida adulta foram entrelaçadas com fio, lacê e agulha em São João do Tigre, elaborando incontáveis desenhos de um traçado concêntrico que gerou toalhas, mantas, palas e roupas. No estande do Salão, Lurdinha como é carinhosamente conhecida, sente-se em casa quando se debruça sobre a almofada em que repousa a peça em execução. Exibe e ponteia o orgulho incontido de apresentar sua arte aos paraibanos e turistas que se "rendem" extasiados diante de tanta habilidade e beleza.

ARTESANATO NOS TRILHOS      



O artesanato paraibano está nos trilhos do reconhecimento nacional e internacional.  Sobretudo, quando cada produto etiquetado de "feito à mão" ganha a reputação de ser único. Ímpares são as panelas e peças decorativas de barro moldadas por Nevinha e Tôta, casal que nunca perdeu uma feira especializada no Estado. As fornadas da produção realizada na cidade de Itabaiana não esfriam nas prateleiras. O destino? Todo o Brasil e alguns países da Europa que foram seduzidos pelos utensílios de cor negra que vão do fogo à mesa.

Nevinha ou Maria das Neves Paiva esculpiu no barro uma história de vida, persistência e talento nato. Há mais de trinta anos - quando vivia da elaboração de potes, aguidares e filtros de água - viu seu trabalho descarrilhar com a popularização do plástico e outros materiais dos tempos modernos. "Nessa época eu também fazia e vendia um tipo de quartinha grande, chamada maceta, de base larga e chata, para os maquinistas dos trens. Viajavam nas cabines conservando a água sempre fria. As garrafas térmicas chegaram e decretaram seu fim", conta o desfecho que serviu de principio para uma guinada na produção.

O plástico fez atolar, temporariamente, a produção do barro. Mas, não sufocou a criatividade. O olhar apurado percebeu saídas para sua arte e um "erro" no ponto da queima foi o acerto de um novo caminho a seguir. Pesquisou, aprimorou e fez do artesanato de barro - que ganha a cor preta no forno com temperatura de 700 graus - objeto de desejo em cada feira que participa pelo Brasil afora. Suas peças voltaram aos trilhos da comercialização e seguem agora a rota do além mar. Não de trem, mas de avião e navio.

"EM SE PENSANDO, TUDO DÁ"



E se do barro "em se pensando, tudo dá", a artesã Jane Maria Alves, da cidade de Serra Branca, deixa a inspiração alçar voo. Da matéria-prima colhida, lavada, peneirada e sovada surgem anjos, arcanjos, querubins...  As asas deles estão em luminárias, presépios exóticos e figuras de ar barroco para pura contemplação. A imaginação também concebe formas terrenas para formatar animais, flores e frutos. Toda uma natureza exuberante que nasce das mãos que molham o barro e dão vida ao que o desejo mandar.

Rodopiando pelo Salão é possível detectar que a fonte inesgotável da criação artesanal está presente em tudo. Na costura das bolsas e carteiras de chita das Cabritas de Boa Vista, na versatilidade do algodão que já nasce colorido, no trançado do talo da palha de coco do município de Pitimbu (Litoral) ou nas redes tradicionais dos teares de São Bento, no Sertão. De Norte a Sul e de Leste a Oeste, o artesanato da Paraíba dá um baile de história e cultura.

Serviço:

15° Salão de Artesanato Paraibano
Data: de 22 de dezembro a 22 de janeiro
Local: Jangada Clube, na Praia do Cabo Branco - João Pessoa/PB
Visitação: gratuita, das 15h às 22h

Fonte: http://folha13.blogspot.com/2012/01/15-salao-de-artesanato-paraibano.html